Castanha do Brasil pode ajudar na prevenção do Mal de Alzheimer

Doutora em Nutrição Experimental venceu o Prêmio Jovem Cientista com pesquisa sobre a atuação do selênio no combate à doença neurodegenerativa

O Mal de Alzheimer não tem cura e o desenvolvimento da doença ainda é um desafio para a ciência. É normal que, na terceira idade, as funções cognitivas apresentem um declínio, mas esse quadro pode se agravar, levando às doenças demenciais. A nutricionista Bárbara Cardoso, 31 anos, doutora em Nutrição Experimental, estuda os efeitos do mineral selênio, presente em grande quantidade na castanha-do-brasil (mais conhecida como castanha-do-pará), na prevenção ao Mal de Alzheimer. Com sua pesquisa, Bárbara venceu o Prêmio Jovem Cientista desta edição, na categoria Mestre e Doutor.

Para demonstrar como o selênio pode atuar no combate ao Alzheimer, é preciso entender o estresse oxidativo – processo diretamente ligado às doenças neurodegenerativas. Quando os nutrientes dos alimentos são transformados em energia pelo organismo, essa ação gera radicais livres que podem danificar células sadias. Em condições normais, o corpo consegue controlar o nível destes radicais. Com o avanço da idade, porém, o sistema antioxidante fica menos efetivo. Como consequência, o estresse oxidativo afeta as sinapses, a neurotransmissão, a circulação e o metabolismo e, assim, os sistemas motor e sensorial, a memória e o aprendizado também ficam comprometidos. Uma das características do Mal de Alzheimer é justamente o estresse oxidativo e o selênio desempenha função essencial como constituinte de enzimas antioxidantes, exercendo importante papel na manutenção das funções cerebrais.
Durante o Mestrado na Universidade de São Paulo (USP), Bárbara avaliou o estado nutricional em relação ao selênio em idosos com Doença de Alzheimer e observou que esses pacientes apresentavam uma deficiência muito grave do mineral. “A partir disso, decidimos fazer a intervenção com a castanha-do-brasil, a fonte de selênio mais importante em pacientes que, embora não tivessem Alzheimer ou outro tipo de demência, já tinham alterações cognitivas, o que representa um risco maior de desenvolver essas doenças”, explica. “Pacientes com Declínio Cognitivo Leve não vão necessariamente desenvolver outras enfermidades, mas a chance de que evoluam para o Alzheimer, por exemplo, é de 40%”, diz.

Durante seis meses, dois grupos de idosos foram estudados: um consumia uma unidade de castanha-do-brasil por dia e o outro não fazia uso de nenhum suplemento alimentar. “Recrutamos idosos que frequentavam o Ambulatório de Memória do Idoso, em São Paulo, e que eram diagnosticados com Comprometimento Cognitivo Leve. Os participantes eram divididos aleatoriamente, por sorteio, entre o grupo controle, que não recebeu nenhuma intervenção, e o grupo que recebeu a castanha. Esse grupo ganhava pacotinhos com 60 castanhas a cada dois meses, assim controlávamos a adesão à pesquisa”, conta.

No início do estudo e após os seis meses, todos os participantes foram submetidos a uma bateria de testes cognitivos, conduzidos por um neuropsicólogo, e a uma coleta de sangue para avaliar todos os parâmetros bioquímicos. “Comprovar que o desempenho dos participantes nos testes cognitivos melhorava após a intervenção foi muito motivador. Foi uma alegria muito grande ver que a intervenção alimentar tinha efeito clínico, além de melhorar a deficiência de selênio”, revela a pesquisadora.

Atualmente, Bárbara dá continuidade à pesquisa no The Florey Institute of Neuroscience and Mental Health, o centro de pesquisa neurológica da Universidade de Melbourne, na Austrália. “Sempre me interessei pela área da saúde e passei a adolescência achando que seria médica. Porém, perto dos meus 16 anos, vi que como nutricionista conseguiria prevenir doenças, ao invés de tratá-las, e com isso optei por estudar Nutrição”, conta. “Pretendo continuar estudando a relação do selênio e de outros minerais nas doenças neurodegenerativas, incluindo o Alzheimer. Faz parte do meu plano realizar parcerias com laboratórios com expertise na área, para que consigamos avançar em benefício da população”.

Para ela, ganhar o Prêmio Jovem Cientista aumentou seu interesse em continuar estudando. “Ser uma jovem cientista é trabalhar em prol da população por meio da Ciência. Faço isso diariamente, e procuro aproximar os conhecimentos gerados na minha pesquisa à população. Isso é um grande desafio, mas creio que conseguirei ter mais êxito se todos puderem entender meu trabalho”, conclui.

 

Fonte: Revista Época